O que Star Trek me ensinou sobre liderança em Startups - Parte II





Finalmente chegamos a segunda parte desse artigo que, confesso, foi um desafio maior do que eu esperava. Afinal, fazer um paralelo entre os estilos de liderança da frota estelar e o livro de Daniel Goldman, não foi algo fácil. Mas como tudo tem seu valor, escrever esse artigo me trouxe saudosas lembranças da época em que achávamos que só fazer um bom produto tinha alguma coisa a ver com sucesso comercial.


Lembro claramente de uma situação em que um candidato a investidor para um dos nossos projetos nos disse que uma ideia não valia nada e por mais chocante que isso tenha parecido, hoje entendo perfeitamente o que ele quis dizer. Um choque ainda maior aconteceu quando um executivo de uma grande operadora de saúde nos disse em uma reunião que a Apple era uma empresa de Software. Lembro que meu antigo sócio saiu de lá dizendo: “esse cara não sabe de nada”. E adivinhem? Ele também estava certo (não meu ex-sócio, mas o executivo em questão). Um dia talvez eu escreva um artigo sobre isso (será que é uma boa ideia?).


Enfim, se você já tentou montar uma startup ou lida com elas constantemente, sabe que essa busca por um modelo de negócios inovador, disruptivo e sustentável pode muito bem ser comparada a uma jornada nas estrelas. Mas não é só de startups que estamos falando. Hoje em dia, liderar e gerenciar uma equipe tão diversa quanto em Star Trek, não é tão incomum. As empresas podem não ter que lidar com Klingons, Vulcanos e Romulanos (raças alienígenas do universo de Star Trek ), mas os desafios que enfrentam são igualmente reais.

Como citei na primeira parte do artigo, vou fazer um breve resumo sobre os capitães da frota e seu estilo de liderança tendo como referência o livro “Primal Leadership ", onde Daniel Goleman (junto com os co-autores Richard Boyatzis e Annie McKee) revelou que as pessoas tendem a se enquadrar em uma das seis categorias principais de liderança: o Líder Comandante, O Líder Que Define O Ritmo, O Líder Afiliativo, O Líder Democrático, O Líder Coaching, e finalmente o meu preferido: o Líder Visionário.


Se você é líder em uma startup ou empresa tradicional, saiba que é extremamente positivo identificar seu perfil de liderança para reconhecer porque você faz as coisas do jeito que faz e assim ajustá-las. Aprender com os capitães de Star Trek certamente vai te ajudar nessa jornada de lidar com o inesperado e de tentar estar em um lugar onde ninguém jamais esteve.


Então, sem mais delongas, vamos começar:



O Líder Comandante: Gowron, filho de M'Rel


Capitão Gowron é o comandante de uma das naves Klingon, uma raça guerreira originária do planeta Qo'noS (pronuncia-se Cronos). Como você já deve imaginar esse é um estilo de liderança agressivo, no velho modo “faça o que eu digo”. O estilo de liderança comandante tem tudo a ver com controle. Os líderes comandantes são enérgicos, diretos e duros. Muito focados nos resultados, esse tipo de líder está disposto a fazer qualquer coisa para atingir seus objetivos, mesmo que isso signifique atropelar as pessoas no processo.

Embora a força e a exigência de total conformidade da equipe possam ser valiosos em tempos de crise, eu, por exemplo, definitivamente não poderia trabalhar em uma nave Klingon. Até porque quando um líder Klingon dá uma ordem, você só tem 2 opções: obedecer ou morrer. Por outro lado, para ser promovido, basta você assassinar o seu comandante que você imediatamente toma o lugar dele. Essa abordagem poderosa (embora sangrenta) definitivamente chama a atenção no estilo de Liderança aplicado nas naves Klingon.


O Líder que estabelece o ritmo: Capitão James T. Kirk


James T. Kirk é o primeiro capitão da série que estreou em 1.966. Ele é o tipo de líder que dá exemplo e dita o ritmo de trabalho. Está sempre desafiando sua tripulação e puxando eles pra frente. Especialmente Scotty, seu Engenheiro Chefe, cujos protestos sobre o desvio de energia para os escudos da nave e outras funções são normalmente ignorados. Quem nunca viu em uma startup o cara da TI reclamando que “isso e aquilo” não dava certo e depois de um tempo a coisa funcionava? Mas para isso acontecer, existe um segredo: Participar. Afinal, um bom capitão não fica somente na ponte.


Quando você está em uma função de liderança, às vezes é fácil escapar de pôr a mão na massa. Com a liderança vêm as vantagens, certo? É fácil ficar preso no escritório de canto e esquecer como é a vida nas linhas de frente. A questão é que quando você perde essa perspectiva, é muito mais difícil entender o que sua equipe está fazendo e a melhor maneira de sair do problema.


Certa vez li em um artigo sobre líderes da Forbes em que o autor falava sobre suas primeiras experiências profissionais quando trabalhava em uma pizzaria. Dizia ele que o gerente geral passava muito tempo em seu escritório, concentrado na papelada. Mas uma coisa que ele fazia questão, todos os dias, era aparecer nos horários de pico e ajudar a fazer as pizzas. Ele não tinha que fazer isso, entende? Mas ele fazia. E isso trazia admiração do time e respeito pelo seu estilo de liderança.


Voltando ao Capitão Kirk, uma das coisas mais marcantes no seu estilo é que toda vez que uma missão desafiadora surgia, ele estava sempre disposto a se colocar em perigo, juntando-se à equipe e tomando a frente das ações. Em suas próprias palavras: "Risco é o nosso negócio. É disso que se trata esta nave. É por isso que estamos a bordo dela."

Está aí uma boa frase para ser usada com seu time nos momentos de crise de uma startup!


O Líder Afiliativo: Capitã Kathryn Janeway


Com um estilo totalmente diferente de Kirk, A capitã Kathryn Janeway é uma líder afiliativa clássica. Logo no início da série ela passa por uma situação ímpar de ter que acomodar em sua nave uma facção rebelde juntamente com sua tripulação da frota estelar. Não vou contar os detalhes, caso você queira assistir a série Voyager, mas saiba que existem lições valiosas em ver Janeway criar harmonia dentro de sua organização e curar fissuras entre grupos tão diferentes.

O mantra de todo líder afiliativo é “pessoas em primeiro lugar”. Esses indivíduos retratam suas características de liderança por meio da promoção da harmonia e da resolução de conflitos entre as equipes. Seu objetivo é construir grupos que funcionem bem em conjunto para cumprir os objetivos estabelecidos pela organização. No entanto, sua motivação não está apenas em cumprir os padrões de desempenho, mas eles têm um interesse genuíno em garantir que os colegas de trabalho se sintam conectados uns aos outros. Muitas vezes, esses líderes são trazidos para aumentar a moral da equipe.


O Líder Democrático: Capitão Benjamin Sisko


A história desse capitão acontece não em uma nave, mas sim em uma estação espacial que fica a muitos e muitos anos luz da terra. Na série Star trek Deep Space Nine, os Bajorianos são um povo que por muitos anos sofreram a ocupação dos agressivos Cardassianos. Acontece que depois de muitos anos e longas interações diplomáticas, Cardácia finalmente libertou Bajor dos seus domínios e nascia aí um ambiente extremamente hostil para se liderar, afinal acomodar os interesses de Bajorianos, Cardacianos, revolucionários como os Maquis e conquistadores como o Domínio não era para qualquer um. O escolhido para mediar tudo foi Benjamim Sisko, um tenente comandante que posteriormente foi promovido a capitão e que usou e abusou da liderança democrática para fazer as coisas darem certo na estação Deep Space Nine.


O estilo de liderança democrática é bem útil em projetos extremamente complexos, com a participação de especialistas cujo conhecimento e experiência excedem muito as habilidades do próprio líder. Um líder democrático não pode ser do tipo que quer ser melhor em tudo. Ao contrário, se concentra mais em ouvir do que em dirigir. E incentiva a participação do time nas decisões. Mas isso não quer dizer que o processo de liderança seja acompanhado por debates intermináveis e pouca ação. Como diz o próprio Sisko “Chega um momento na vida de todo homem em que ele deve parar de pensar e começar a fazer”. Tenho certeza que você concorda com essa afirmativa.


Na próxima e última parte desse artigo, vamos analisar o estilo de liderança de dois capitães que operaram em épocas quase opostas: Capitão Jonathan Archer escolhido para liderar a nave Enterprise, nos primórdios da exploração espacial, por volta do século XXII e meu preferido: Jean-Luc Picard, considerado por muitos o melhor capitão de todos os tempos.

As sete temporadas da Star Trek de Picard estão tão recheadas de lições sobre empreendedorismo e liderança que existe até um livro inteiro dedicado as táticas desse personagem que impactou toda uma geração.


Então não perca o próximo artigo e até lá.